Almas gêmeas ou consciências afins?
Rosália Monteiro
"Por mais difíceis que os fatos lhe pareçam agora, jamais perca as esperanças. Confie nos vínculos multidimensionais do ser; pois em alguma dimensão do universo alguém ama você."
A maioria das pessoas almeja ter um desses raros encontros de destinos em que duas pessoas se reconhecem imediatamente como seres intensamente afinizados. Nesses encontros - ou reencontros - ocorre uma atmosfera de amor que envolve o par, dando-lhe uma aura de beleza inconfundível. Dá-se a convergência de idéias, objetivos e forte sentimento de integração. Os dois amantes optam pela vida compartilhada e, juntos, iniciam o projeto de cooperação para o crescimento de cada um e da relação afetiva. Para os enamorados, o valor maior da vida é o amor, que os alimenta e se expande para tudo em torno deles. Na busca do significado maior da existência, seguem ofertando gestos de ternura reciprocamente. Nada é por dever. Tudo é feito em clima de alegria e gratificação pela oportunidade de estarem ao lado um do outro. Nesses encontros transformadores, a confiança e o respeito sustentam e favorecem a intimidade e a entrega de felicidades mútuas.
Há grande interesse imediatista na resposta a essa questão. Muitas pessoas assistem aos cursos que ministro sobre o amor - tema deste livro - com a vontade de realizar suas fantasias a respeito da existência das almas gêmeas; no entanto, os estudos sobre a consciência não indicaram, até agora, a possibilidade da existência de almas gêmeas como preconizam os crédulos. Não existem seres divididos que buscam suas metades perdidas pelo mundo. Isso pode parecer romântico e fazer sonhar àqueles que precisam fugir dos fatos. Como a maioria das pessoas tem grande falta de autoconhecimento, é mais confortável atribuir a outro ser a responsabilidade pela própria felicidade. Há um grande número de fazedores de ilusões, que buscam fomentar esses mitos e lendas, contribuindo para que a humanidade permaneça no infantilismo. Maturidade chega com empenho individual. Viver no mundo da fantasia traz deslumbramentos, porém não contribui para dinamizar processos evolutivos.
Se quisermos amadurecer para o amor, precisamos nos tornar adultos, com tudo o que esta palavra significa: estar aptos a assumir nossas responsabilidades evolutivas. Podemos compartilhar a existência com outros companheiros de jornada consciencial; entretanto, eles jamais podem ser responsabilizados pelas agruras, alegrias e sucessos por nós vivenciados. É imaturo pensar que a nossa felicidade amorosa possa vir de outra pessoa. Nossa felicidade é responsabilidade nossa, depende tão-somente da vontade inquebrantável. Além do mais, existe uma lei universal: quem dá recebe. Logo, é preciso ter amor para oferecer antes de tudo. Caso contrário, teremos relacionamentos com elos de carências, posse, medos, cobranças e muita insegurança.
Existe, sim, a possibilidade de um encontro jubiloso em nossas vidas com consciências com as quais nos afinamos de modo integral, holopensênico, ou seja, em termos de pensamentos e sentimentos, bem como em termos físicos e energéticos. Mais adiante apresentarei procedimentos para quem quiser identificar ou encontrar um par com padrão de afinização consciencial ou, se assim o quiserem continuar denominando, a alma gêmea.
Para aqueles que, como eu, identificam a vida humana em seu aspecto transitório, almas gêmeas são consciências afins, que já experienciaram múltiplas existências juntas. Vivenciaram em profundidade a intimidade que exige conhecimento e ratificação no tempo. São companheiras antigas, cujo encontro nos enche de gratificação. Podemos nos encontrar de forma fragmentada com muitas pessoas. Com algumas nos identificamos em aspectos físicos, com outras pela sintonia de idéias. Com tantas outras nos relacionamos mais intensamente pelo aspecto emocional. No entanto, somente com as consciências que nos são afins o relacionamento ocorre em todos os graus; por isso é denominado encontro pleno, pois nele estamos inteiros. Um encontro deste tipo é mais raro de acontecer, devido aos obstáculos causados pelas muitas imaturidades.
O encontro unificado revela-se quando temos a impressão nítida de que a pessoa que acabamos de conhecer nos é extremamente familiar. Não se trata de um encontro de personalidades humanas, mas de um reencontro de consciências multiexistenciais que de há muito se entreajudam em diversas existências. Isto faz o amor permanecer em processo evolutivo. Nessas vidas passadas, fortaleceram seus vínculos de amor pela dedicação, admiração, respeito mútuo e muitas vezes, em grande intensidade, lado a lado, por ideais em prol da humanidade, deixando um rastro de produtividade, quer por meio de assistencialidade muito diversificada, quer por meio da arte ou do conhecimento científico, ajudando o mundo a sentir, pensar e interagir melhor.
Quando estamos conscientes da nossa realidade consciencial, podemos ser receptivos e visíveis às consciências afins, pois somos capazes de ser mais autênticos. Neste caso, a identificação e o reconhecimento são instantâneos. Esta integração pode acontecer entre estranhos, amigos, parentes, ou seja, ocorre quando o momento evolutivo é propício. Geralmente, acontece quando estamos concentrados em tarefas corriqueiras do dia-a-dia. No entanto, existem pessoas que são levadas intuitivamente para o encontro, irresistível e jubiloso, com a consciência afim. Sentem-se próximas a elas de algum modo. Sabem, intimamente, o período do encontro e, às vezes, sentem-se arrastadas para determinado lugar ou levadas por circunstâncias que a colocam face a face com o par evolutivo.
É importante esclarecer que do ponto de vista transpessoal ninguém faz vínculo amoroso intenso apenas com única consciência, mas com várias, já que a vida multidimensional se caracteriza por uma série de existências. Aceitemos ou não o fato de a consciência poder ter muitas existências, as leis universais continuarão inabaláveis. Com inúmeras consciências, tecemos laços de afetos e desafetos em diferentes graus no passado recente ou remoto. Estas marcas ficaram registradas em nosso campo energético pessoal, também denominado psicossoma. Daí determinados processos de atração irresistível à primeira vista ou sentimento de repulsa diante de certas presenças. Quando mais lúcidos a respeito da cosmoética (moral cósmica) estivermos, mais procuraremos elaborar nossos vínculos afetivos ao longo de nossa história consciencial por meio de múltiplas seriéxis, com a finalidade de nos harmonizarmos com a moral cósmica.
Identificação da consciência afim
Seu par na dupla evolutiva temporária, ou consciência afinizada com você, pode ser identificado se você estiver autoconsciente, pelo menos razoavelmente, de suas características holopensênicas; tipos de pensamentos predominantes, modo de sentir e processo bioenergético global.
O desejo de ser reconhecido e identificado como uma pessoa autêntica e singular move o sentimento de necessidade na procura daquele que seja afim. Mas, nas pessoas que se relacionam com o universo de forma holística, a ampliação dos sentidos faz com que percebam a si mesmas e aos outros seres de modo multidimensial. Dessa forma mais genuína, sua vida consciencial é um contínuo de existências que podem ser acessadas na memória integral a partir do autoconhecimento ou de flashs retrocognitivos. Lembranças arquivadas na memória integral favorecem elementos para o reencontro e o alicerce do novo relacionamento. Assim, quando nos dispomos a encontrar a consciência afim, objetivamo-lo de tal modo, que as circunstâncias nos conduzirão a ela. Dá-se o fenômeno da visibilidade integral. Logo que nos dispomos intimamente a encontrar uma das consciências com quem temos afinidade consciencial, imediatamente o universo conspira para o encontro, e seres humanos considerados especiais se encontram para o amor mais uma vez.
A identificação da consciência amada se dá pelas afinidades entre holopensenes com maior número de semelhanças. Desse modo, quando emitimos, através de morfopensenes, ou seja, pensamentos modelados com a imagem pintada detalhadamente pela nossa imaginação, a consciência a quem nos dirigimos recebe mentalmente as informações para comunicações iniciais. Tudo o que pensamos somos capazes de realizar. Todos os objetos do mundo físico, produzidos pelo ser humano, foram, em princípio, pensados por alguém. Assim, uma das consciências afins pode, por exemplo, ter um sentimento de inexplicável saudade, mas indefinido e tão intenso, o que deixa a pessoa melancólica e suspirante. Segundo a Lei de Newton, a toda ação se opõe uma reação igual e oposta. A vontade é a ação, o reencontro é a reação inevitável.
Sempre que evocamos mentalmente algo ou alguém para integrar a nossa vida, precisamos ficar atento às mensagens silenciosas e aos sinais indicadores da realização almejada. Em geral, a resposta aos nossos anseios é a primeira vinda à mente, pois está isenta de racionalizações defensivas. Daí a importância de se manter tranqüilo a fim de poder fazer emissões mentais claras e precisas a outra consciência com quem queremos fazer contato em todos os níveis. Para tal, é preciso estarmos em contato conosco mesmos com desperticidade. Se tivermos a certeza de que queremos a presença dessa consciência em nossa vida e o fato for bom para os dois, conforme as leis universais, tudo se ajustará como luva e mão. A convicção mental ajuda a mobilizar nosso livre-arbítrio gerando, em conseqüência, o encontro de plenitude ambicionado. Existe uma lei, denominada por alguns pensadores de lei de circulação de bens. Segundo ela, só recebemos o que damos e perdemos o que retemos. Portanto, a cada um segundo a sua meritocracia evolutiva já conquistada.
As consciências afins se determinam evoluir juntas como parceiros, com a finalidade de realizar um projeto de vida. Se, por algum motivo, estão impedidos, ajustam suas existências para ficarem pelo menos próximas uma da outra, ainda que o relacionamento amoroso se dê com pares que não aqueles com que estão afinizados integralmente.
Mas, se há oportunidade, cada novo encontro ilumina a vida para ambos. Sentem-se rejuvenescidos. Aflora uma primavera energética de fulgores e de beleza na qual ambos desabrocham o que há de melhor em si mesmos. É um momento em que os mais elevados sentimentos eclodem. Oportunidades de crescimento e mudanças significativas podem ser desencadeadas para o par. Estando na companhia de alguém tão querido, tornam-se convenientes certos arrojos do espírito para determinadas realizações impossíveis de acontecer sem a contribuição do ente amado. Nesses momentos existenciais decisórios, sentem-se mais fortes. Este momento esplendoroso talvez se deva ao quantum de carinho que têm guardado para oferecer ao outro, ou à espera multissecular, muitas vezes vivenciada com a marca da saudade dessas consciências. Inigualável chance de enlevo, autodescobertas e amadurecimento. Trata-se de um encontro de destinos que pode mudar as rotas evolutivas dos dois para melhor.
O amor entre essas consciências afins repercute à sua volta e influencia positivamente o ambiente. A luminescência que irradiam transforma em possibilidade realizações consideradas inacessíveis. Os mais difíceis obstáculos são superados pela força da união.
O amor consciencial, qual farol de benesses, espalha para muitos bênçãos de solidariedade em obras generosas. Pela sua raridade, costuma suscitar não só admiração, mas inveja e até ódio naqueles que ainda não se dispuseram ao exercício do amor.
Nos grandes momentos de reencontro consciencial, se estivermos com nossas percepções ampliadas em nível transpessoal lúcido, identificaremos sem dúvida nossos inconfundíveis amores, pois nos manifestamos através de campos de energias que são poderosos referenciais sobre nós mesmos em qualquer dimensão existencial.
O texto é um excerto do capítulo 6 de "A Significação do Amor - O Maior Aprendizado da Consciência", de Rosália Monteiro, psicóloga clínica, psicoterapeuta, professora e pesquisadora da consciência, lançado no Brasil pela Editora Epicon.